top of page

Um Disco Que Laufey Colocaria no Procênio de Sua Estante de vinis

marioandremedella
9 de set.
3 min de leitura

O fenômeno da bossa nova, ao cruzar o Atlântico e explodir no imaginário norte-americano no início da década de 1960, provocou um fascinante movimento de espelhos na indústria fonográfica global. Enquanto gigantes do jazz norte-americano corriam para os estúdios para registrar suas leituras do novo ritmo brasileiro, no próprio Brasil músicos locais articulavam respostas estéticas refinadas a essa invasão cultural. Foi nesse contexto de fervura criativa e diálogo transnacional que surgiu um dos projetos instrumentais mais elegantes e enigmáticos daquele período, o grupo batizado de The Bossa Nova Modern Quartet. Lançado originalmente no mercado brasileiro no ano de 1963, o conjunto representou uma apropriação sofisticada do formato camerístico popularizado pelo célebre Modern Jazz Quartet norte-americano, mas com o balanço, a síncope e a malandragem harmônica essencialmente cariocas. Em vez de reproduzir passivamente o jazz estrangeiro, esses instrumentistas brasileiros de primeira linha operaram uma fusão reversa, provando que a bossa nova não era apenas uma mercadoria de exportação domesticada, mas uma linguagem intelectual complexa, capaz de dialogar de igual para igual com o cool jazz e o bebop.


O único e homônimo álbum do grupo, frequentemente catalogado nas reedições e no mercado internacional de colecionadores como Bossa Nova Jazz Samba, é um monumento clean e sofisticado de fluidez melódica. A atmosfera sonora do disco afasta-se do gigantismo das orquestras de estúdio para apostar no diálogo íntimo e na precisão simétrica dos arranjos. O grande diferencial estético da obra reside na liderança e no entrelaçamento entre o vibrafone e a flauta, que flutuam sobre uma cozinha rítmica absurdamente precisa e swingada, evocando ao mesmo tempo o frescor de uma tarde em Copacabana e o rigor formal do jazz de vanguarda. O repertório do LP equilibra de forma magistral composições autorais inventivas com leituras cirúrgicas de clássicos que moldavam a identidade da música brasileira na época. Estão presentes no alinhamento do disco interpretações de clássicos absolutos de Antônio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes como Corcovado e Garota de Ipanema, além de Chora Tua Tristeza, de Oscar Castro Neves e Luvercy Fiorini. Ao lado desses standards, o quarteto desfila temas originais e menos óbvios que demonstram o virtuosismo individual dos envolvidos, como Brincando Gostei, Fim de Semana Em Eldorado, Sambette Número Três, Do Jeito Que A Gente Quer, Vira Lata, Beduíno e a faixa-título Bossa Nova Jazz Samba, composições que servem de laboratório para improvisações contidas, elegantes e desprovidas de excessos.


Para compreender a densidade técnica por trás desse registro histórico, a análise de sua ficha técnica revela um verdadeiro esquadrão de elite da música instrumental brasileira da época, embora protegidos por um nome de grupo que mirava o mercado internacional. A formação essencial do quarteto traz o virtuoso José Cláudio das Neves no vibrafone, instrumento central que dita a cor harmônica e o lirismo frio do álbum, espelhando a estética do jazzman Milt Jackson com um sotaque rítmico puramente brasileiro. O contraponto melódico e os sopros ficam a cargo do genial Jorginho, dividindo-se entre o saxofone e a flauta com uma articulação ágil e de extrema sensibilidade. A sustentação harmônica e o pulso rítmico, pilares fundamentais para que a síncope da bossa nova aconteça com naturalidade, são garantidos pelo contrabaixo acústico seguro de Luiz Marinho e pela condução elegante e inventiva de Plinio na bateria. O álbum foi gravado e lançado originalmente em solo brasileiro no ano de 1963, consolidando-se nas décadas seguintes como uma joia rara da arqueologia musical, um testemunho histórico de um período em que os músicos brasileiros pegaram as ferramentas do jazz moderno para lapidar, com orgulho e independência artística, a sua própria revolução estética.



The Bossa Nova Modern Quartet - 1963 - Full Album


Milt Jackson - Isn't She Lovely

 
 
 

Comentários


bottom of page