O Contrabando da Alma no Mercado do Fast-Food Sonoro

Entre bandas de rock sem sal repetindo fórmulas sem graça, coisas pop genéricas tentando parecer MPB de almanaque e trabucos eletrônicos frios gerados por pura "burrice artificial", duas muito bem-vindas surpresas tive ao prestar um pouco de atenção no coliseu contemporâneo onde acontece o Rock in Rio. O festival, muitas vezes criticado pelo excesso de concessões comerciais, acabou virando o cenário de redenções estéticas inesperadas, provando que quando a técnica encontra a alma, o mercado é obrigado a abrir espaço para o beleza.
O estereótipo que dita que as novas gerações têm os ouvidos irremediavelmente anestesiados por um pop genérico, batidas eletrônicas hipnóticas ou ruídos industriais massificados e exageradamente distorcidos acaba de sofrer um golpe de misericórdia. Quem esteve atento aos palcos nos últimos dias testemunhou um fenômeno que desafia a expertise dos críticos mais puristas: a consagração de Laufey. A apresentação da jovem cantora islandesa não foi apenas um concerto irretocável, mas um manifesto vivo de que a música refinada, complexa e atemporal tem, sim, um público jovem, fervoroso e profundamente conectado com a excelência estética. Ouvir a sua voz e presenciar a reação da plateia foi uma grata e revigorante surpresa, um lembrete urgente de que a sofisticação melódica nunca deixou de ser fascinante. Para compreender a solidez do que Laufey entrega no palco, é preciso olhar para a sua bagagem. Laufey Lín Bing Jónsdóttir carrega em sua ancestralidade e formação a fusão perfeita entre disciplina e sensibilidade. Filha de uma violinista clássica chinesa e de um pai islandês apaixonado por discos de jazz, ela cresceu respirando música em Reykjavik. Sua jornada acadêmica e profissional impressiona pela precocidade: aos quinze anos já se apresentava como violoncelista solo na Orquestra Sinfônica da Islândia e, mais tarde, consolidou seu aprendizado formal na prestigiada Berklee College of Music, em Boston. Essa formação erudita moldou uma multi-instrumentista formidável, capaz de transitar pelo piano e pelo violão com a mesma naturalidade com que manipula harmonias vocais complexas. É esse currículo robusto que serve de alicerce para uma assinatura artística que une a precisão técnica ao calor da interpretação. As influências de Laufey são um banquete para quem verdadeiramente ama a história da música. Em suas composições, ecoam o fraseado elegante de Ella Fitzgerald, a melancolia confessional de Billie Holiday e o romantismo orquestral de Chet Baker. No entanto, o que torna sua obra magnética para os adolescentes e jovens adultos de hoje é a genialidade com que ela traduz a era de ouro do jazz e do pop tradicional americano para as dores e amores da contemporaneidade. Ela não faz um pastiche do passado; ela revitaliza o gênero. Ao misturar essas referências clássicas com arranjos que dialogam sutilmente com o indie pop e, de forma muito especial, com a nossa Bossa Nova — ritmo pelo qual ela já declarou paixão pública e que executa com uma intuição rítmica impressionante —, Laufey constrói pontes entre épocas que muitos julgavam distantes demais. A comoção gerada por sua música traz consigo uma lição de mercado e de sociologia cultural que não pode mais ser ignorada. Há décadas, a indústria fonográfica subestima a capacidade intelectual e emocional da juventude, despejando fórmulas prontas sob o pretexto de que o público consome apenas o que é fácil e descartável. Laufey prova o exato oposto. O problema central da indústria nunca foi o ato de massificar a arte, mas sim a escolha deliberada de massificar o que se tem de pior, nivelando o gosto coletivo por baixo. A engrenagem capitalista da música não precisa ser inimiga da qualidade; não há absolutamente nada de errado em ganhar dinheiro e alcançar o topo das paradas globais, desde que esse lucro seja fruto da difusão da beleza, do talento real e da honestidade artística. Portanto, o sucesso avassalador desta jovem islandesa serve como uma advertência clara aos produtores, curadores e aos próprios ouvintes mais velhos: parem de subestimar os jovens. A juventude não está perdida para o barulho e para a superficialidade. Se apresentarmos a eles o que é estruturalmente rico, harmonicamente belo e poeticamente profundo, eles não apenas consumirão, mas transformarão esses artistas em seus novos ídolos. A sensibilidade juvenil está faminta por verdade em meio a tanta plasticidade algorítmica. Laufey é o farol que ilumina esse novo caminho, mostrando que a grande música instrumental, o jazz e a canção bem arquitetada continuam vivos, pulsantes e, acima de tudo, incrivelmente jovens.
Mas o coliseu do festival não guardou seus milagres apenas para o virtuosismo importado do hemisfério norte. A outra monumental rasteira no cinismo geral veio de um território teoricamente familiar, mas subvertido de forma impecável. O cantor Péricles, frequentemente encaixotado pelo julgamento raso da elite intelectual na prateleira do "pagodin maomeno" das rádios popularescas, subiu ao Palco Sunset para dar uma aula histórica de interpretação. Quem esperava o feijão com arroz dos clichês comerciais testemunhou uma entrega vocal primorosa abraçar o repertório imortal da Motown Records, a mítica gravadora de Detroit que moldou a espinha dorsal da black music mundial. Péricles não apenas cantou; ele conduziu a plateia por um mergulho profundo na história, resgatando hinos de Marvin Gaye, Stevie Wonder, Lionel Richie e The Jackson 5 com uma propriedade técnica e uma dignidade que poucos vocalistas em atividade conseguiriam sustentar. Foi um espetáculo de maturidade musical, daqueles que legitimam trajetórias e refinam a percepção do público por osmose.
Para dar sustentação a esse projeto minucioso, o experiente ex-pagodeiro (será que já podemos usar tal expressão?) se cercou de uma superbanda precisamente calibrada sob a curadoria de Zé Ricardo. O esquadrão sonoro no palco contou com uma formação robusta de mais de dez integrantes, incluindo uma cozinha rítmica precisa com baixo, bateria e percussão bem desenhada, além de uma sessão de metais cortante e um quarteto de apoio vocal de altíssimo nível, composto por três backing vocals femininas e um cantor masculino. O arranjo das canções fluiu com o groove orgânico dos anos setenta, mantendo viva aquela tradicional elegância instrumental que dita o balanço original do funkamericano. A grande torcida que fica para os puristas e devotos do verdadeiro swing é que Péricles não deixe esse projeto morrer como um evento isolado de festival e que ele mantenha essa apocalíptica virada artística em sua trajetória. O mercado brasileiro precisa ver esse artista excursionando com a potência do soul e do R&B, ostentando a versatilidade de quem passeia pela síncope do samba e pela sofisticação norte-americana com a mesma assinatura.
A verdade inescapável é que a música de qualidade sempre encontra caminhos para emergir, funcionando exatamente como o sangue, que dá um jeito biológico de seguir seu fluxo vital mesmo quando se depara com uma veia gravemente bloqueada. No cenário atual, a circulação artística está severamente entupida pela chatice burocrática que reina nas plataformas, pelo mercantilismo premente que prioriza métricas em detrimento da estética, pela completa falta de talento natural e, é claro, pelas facilidades tecnológicas que operam como uma faca de dois gumes. Afinal, hoje todo mundo canta com a muleta do autotune, todo mundo compõe através de colagens banais, todo mundo toca e faz arranjo no clique de um software caseiro, tudo isso amparado e "patrocinado" por nossa nova guru hightec, que carinhosa e intimamente eu chamo de "Tia Ivone Almeida" (IA). Diante desse ecossistema onde a facilidade gera a ilusão de genialidade, a produção cultural virou um oceano de mediocridade generalizada. Haja joio. É muito joio para pouquíssimo trigo, mas quando figuras como Laufey e um Péricles repaginado pisam no palco, a colheita real finalmente justifica a existência da arte.
Laufey - Lover Girl (Official Music Video)
Laufey - From The Start (Official Audio)
Laufey - Valentine (Official Audio)
Laufey - Promise (Official Audio)



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