top of page

Aldir 80, o Mago da Muda (Aos pés da goiabeira branca)

marioandremedella
9 de set.
14 min de leitura

Atualizado: há 5 dias

Se o Aldir estivesse aqui neste dois de setembro para soprar oitenta velinhas, o mais provável é que ele descarregasse o bolo na cabeça de algum político boçal. Transformaria a solenidade em uma legítima cena de pastelão e exigiria, em contrapartida, uma porção de torresmo e moela escoltada por um chope com dois dedos de colarinho — daqueles que deixam bigode de espuma por cima do bigode real, já devidamente lambuzado de caldo de mocotó. Oitenta anos de um sujeito que passou a existência destrinchando o Brasil pelas entranhas não cabem em homenagens de gravata e rapapés empolados; afinal, ele nunca foi dado ao verniz da hipocrisia e da incoerência. Ele preferia a poeira que se agitava nas calçadas de pedras portuguesas aos passos dos Zés Ninguéns e das Marias de Nadas. Amava o hálito escaldante do asfalto da Garibaldi — que espargia um defumador insólito vindo do "soro poluído" das águas do Maracanã — e o suave aroma de umidade que brotava da infiltração na parede da esquerda (obviamente), logo acima de onde terminavam os azulejos texturizados na gordura ancestral dos botequins da Zona Norte, onde a vida real acontece sem filtro e sem anestesia. Posso dizer isso porque partilhei com ele inúmeros momentos de intensas prosas que beiravam o surrealismo (quase um evento psiquiátrico) — daquelas de provocar inveja no Dalí, ruborizar o Nelson Rodrigues e colocar em xeque a fé da mais beata das carolas tijucanas —, bem ali, na Dona Maria, no Momo, no Estefânio e até mesmo dentro de sua invejável biblioteca. Ali, parecia se ouvir os sussurros suplicantes de milhares de livros: "Aldir! Aldir! Devora-me, para que eu possa te inspirar na próxima letra!" E assim ele o fazia, como fazem os mosquitos da dengue, devorando nossas pernas quando estamos sentados nas mesinhas panorâmicas da calçada, apreciando a garota que vem e que passa num doce balanço a caminho da Xavier de Brito. Certa vez, por ocasião dos seus 70 anos, ele disse, parafraseando João Ubaldo, que o ato banal de resgatar um par de meias embaixo da cama era um feito quase olímpico, mostrando que a juventude tinha se distanciado em definitivo, diferentemente do que afirmava na bela 50 anos: "citando Cartola / eu fiz o que pude / aos 50 anos insisto na juventude". A verdade é que hoje, 2 de setembro de 2026, Aldir dá sua resposta ao tempo, que "no fundo é uma eterna criança / que não soube amadurecer / eu posso, ele... não vai poder me esquecer". Nem o tempo nem ninguém que ame a cultura, que pense e repense o Brasil e que não compactue com a mediocridade vigente esquecerá o "mago da Muda".

 

Olhar para a Muda hoje, esse pedaço de Tijuca que ele transformou em centro do universo, é entender que a alquimia não precisa de fórmulas mágicas. A singular magia do nosso psiquiatra desertor era pegar o bate-boca da esquina, a fofoca da vizinha da janela, a frustração do torcedor de subúrbio e transformar tudo isso em poesia da mais alta linhagem. Ele operava milagres com o cadinho cotidiano e assinava a autoria de um Rio de Janeiro que a Zona Sul fingia que não existia, mas que todo mundo se condoía igual por dentro quando ouvia suas crônicas cantadas: "As frases e as manhãs são espontâneas / levantam do escuro e ninguém pode evitar / eu tento apenas mostrar cantando / o lado oculto do meu coração".

 

Sua alquimia era crua, sim, e por vezes tão lírica que doía no meio do timo como um soco bem dado na boca do estômago: "Mais que a lua, teu olhar / lumbra a sombra e o martírio / vendo o pranto em teu olhar / se suicida na varanda um lírio". Eu via de perto como ele sabia perfeitamente que os certinhos e os boêmios bebem no mesmo balcão e dividem o mesmo prato de tremoços discutindo o último gol do Dinamite. Enquanto o país tentava se equilibrar na corda bamba das aparências, ele escancarava as nossas feridas com um sorriso de soslaio que misturava deboche refinado e profunda empatia com os derrotados — "eu gosto quando alvorece / porque parece que está anoitecendo / e gosto quando anoitece que só vendo / porque penso que alvorece".

 

A geografia quase mítica de sua vida começou de forma itinerante, mas certeira nas suas esquinas de inspiração. O berço foi o Estácio de Sá, onde o garoto viveu os seus primeiros três anos de vida, absorvendo o ar de um dos maiores redutos do samba carioca. Logo depois, a infância se desdobrou em Vila Isabel, mais especificamente na carismática região da Aldeia Campista. Foi lá, na casa do vô Aguiar, sob a sombra protetora da goiabeira branca do quintal, observando o reflexo da lua cheia na água da caixa-d'água e batucando nas panelas da vó Noêmia, que os seus olhos de menino aprenderam a reparar na poesia solta das ruas, enquanto ao fundo ecoava a flauta sonorosa do Benedito: "Saindo pro trabalho de manhã / o avô vestia o sol do quarador / tecido em goiabeiras, sabiás / cigarras, vira-latas e o amor".

 

Mais tarde, o destino e as reviravoltas da vida o arrastaram novamente para o Estácio durante a sua adolescência, período em que enfrentou o sofrimento silencioso de uma terrível perseguição e zombaria por parte dos locais. Esse ambiente hostil fez com que ele, ao final da adolescência, fosse morar com o primo no Largo da Segunda-Feira. Dali em diante, ele nunca mais deixaria a Tijuca. Esse vaivém geográfico e os anos posteriores de formação médica serviram apenas para dar ao ourives as ferramentas certas de corte. Em vez de receitar calmantes para a classe média neurótica, ele preferiu diagnosticar a alma de uma nação inteira que teimava em sambar sobre os próprios estilhaços: "Varejeira come lixo feito creme chantili / que mistério tem aí? / e qual lição que eu aprendi?".

 

O poeta Blanc percebeu cedo que o consultório era pequeno demais para quem precisava escutar o choro do bêbado no balcão e o riso frouxo da mariposa na calçada. Parceiro de João Bosco, de Guinga, de Moacyr Luz e de quem mais tivesse a audácia de musicar seus labirintos mentais, ele criou um cancioneiro que funciona como um espelho sem moldura. No clássico absoluto O bêbado e a equilibrista, a história oficial costuma apontar um desenho detalhado do sufoco da ditadura. Porém, essa é apenas a suposição dos experts musicais de plantão; pelo que ouvi dele, não havia essa declarada intenção, pelo menos nessa música. Tanto é que ele nem sabia quem era o tal "irmão do Henfil" na época. Alheia a isso, a mídia do período, fisgada por esse verso, a elegeu e consagrou como uma espécie de hino da anistia. Ele escrevia a noite do Brasil: "Lá no mata-borrão do céu / Chupavam manchas torturadas / Que sufoco! / Louco! / O bêbado com chapéu-coco / Fazia irreverências mil / Prá noite do Brasil".

 

Ele entendia a dor de um tempo em que a esperança equilibrista sabia que cada passo na linha do horizonte era um risco de morte eminente. Sua ironia fina e mordaz nunca foi um escudo covarde, mas sim uma arma de precisão usada contra a cafonice dos poderosos e a empáfia dos falsos moralistas. Ele ria do mundo porque sabia que o riso é a única revolução possível quando as lágrimas já secaram no lenço sujo de poeira e batom: "sem bandeira ou fingimento / que balance e abagunce / o desfile e o julgamento".

 

Mesmo com trinta anos na época da composição de Bijuterias, ele já tinha a luneta apontada para as miudezas que revelam a alma humana, desnudando a fragilidade afetiva sem o verniz do romantismo de folhetim. Na trilha de abertura de O Astro, ele avisava: "Na idade em que estou / Aparecem os tiques, as manias / Transparentes / Transparentes / Feito bijuterias / Pelas vitrines / Da Sloper da alma". Era a exposição escancarada e afiada de um homem que se recusava a aceitar falsas composturas sociais.

 

Sua crítica social não vinha de um pedestal acadêmico ou de teses sociológicas enfadonhas, mas sim do olhar atento de quem repara nas dores dos esquecidos. Ele colocava o Brasil em uma bandeja bem polida e nos obrigava a ver a nossa própria cara feia de ressaca segundeira. Nas suas letras, a cidade respira como um monstro adormecido que acorda exalando aroma de fleur de baie e bufando fumaça de fritura do pastel da feira; ou liricamente como a "meretriz princesa", a "loura mãe-de-santo com sua gargantilha acesa".

 

O lirismo brota do inesperado, como uma flor de lótus nascendo no lodo negro do valão, provando que a beleza está nos olhos de quem sabe decifrar o caos. Em Corsário, longe de qualquer clichê romântico de fadas e florestas, ele ancorava sua poesia na carne e no mar: "Meu coração tropical está coberto de neve, mas / Ferve em seu cofre gelado / E a voz vibra e a mão escreve: mar". O pirata da Muda conhecia, como poucos, os oceanos mais profundos da solidão humana.

 

A sofisticação harmônica que seus parceiros traziam encontrava nas suas palavras o contrapeso perfeito da sarjeta e do asfalto bruto. De frente pro crime não é apenas uma música sobre um assassinato banal de subúrbio, mas um tratado antropológico sobre a nossa terrível capacidade de tomar uma cerveja gelada enquanto o mundo desaba ao nosso lado. "Tá lá o corpo estendido no chão / Em vez de rosto uma foto de um gol / em vez de reza uma praga de alguém", e a vida segue seu fluxo indiferente, burocrática, cruel, e como diria ele, superlampoticamente carioca.

 

Ele conseguia a façanha de ser profundamente local e, justamente por isso, absolutamente universal em cada linha que registrava para a eternidade. Longe dos rascunhos improvisados, ele preferia o arpejo mecânico de sua velha máquina de escrever, que utilizou até o apagar de seus dias. A Muda era o seu microcosmos, o laboratório onde ele isolava os vírus da hipocrisia e da paixão para depois injetá-los na corrente sanguínea da MPB. Quem nunca sentiu a melancolia pesada de um fim de tarde de domingo não sabe o que é o território sentimental que ele demarcou com cercas de arame farpado e poesia: "Acendo um cigarro, molhado de chuva até os ossos / e alguém me pede fogo / é um dos nossos".

 

Andar por essas esquinas mentais hoje nos faz perceber a falta que faz um cronista disposto a cheirar a bolinho de bacalhau e ouvir as queixas da amante e da mulher do balconista. Ele era o avesso do politicamente correto antes mesmo de inventarem o termo, pois sabia que a existência humana é cheia de arestas, secreções, contradições e desejos inconfessáveis. Ele dava voz aos desajustados, aos amantes clandestinos, aos obsessivos que passam a noite em claro decifrando as frestas da vida cotidiana através das cortinas da sala: "Ah o que eu me lembro / pode não ter sido / tão fielmente o fato acontecido / essa é a sina que assassina e salva qualquer narrador".

 

Quando se juntou a Guinga, a alquimia ganhou tons ainda mais complexos e barrocos, o subúrbio entoando uma ópera expressionista na mesa do bar. Em Catavento e girassol, os opostos geográficos e temperamentais do Rio se chocavam na mais fina arquitetura dos versos: "Eu sou um gato de subúrbio / Você é litorânea / Quando eu respeito os sinais / Vejo você de patins / Vindo na contramão". Era a poesia brincando de malabarista com os contrastes da cidade.

 

Sua capacidade de reinvenção era um choque de realidade nos críticos que tentavam trancá-lo na caixinha estreita do compositor de protesto ou do sambista irreverente. Ele era tudo isso e o seu exato oposto, um poliedro de genialidade que incomodava os puristas de plantão. Ele zombava da própria decadência física, das suas esquisitices que o trancavam em casa, e fazia da sua reclusão na Tijuca um exílio voluntário de um imperador sem coroa, mas com o cetro da palavra: "Jereba, saci, caandrades, cunhãs, ariranha, aranha / sertões, Guimarães, baquianas águas / Imarionaíma, ariraribóia / na aura das mãos de Jobim-açu".

 

Oitentinha seria uma idade bonita para vê-lo receber babaovices protocolares na televisão, daquelas que ele certamente assistiria mudando de canal e soltando um tonitruante palavrão bem ao estilo de um Flamengo x Vasco. Ele detestava a tietagem e as homenagens vazias, a transformação do artista em estátua de bronze onde os pombos fazem sujeira na praça. O verdadeiro Aldir está vivo quando o apontador do jogo do bicho anota o palpite na calçada ou quando alguém chora de amor ouvindo um rádio de pilha que chia ao som do Trio Los Panchos: "No drama sufocado em cada rosto / a lama de não ser o que se quis / a chama quase morta de um sol posto / a dama de um passado mais feliz".

 

Neste dois de setembro, o melhor tributo não é o silêncio respeitoso, mas o barulho dos talheres no prato de feijoada, o brinde dos copos americanos com limão da casa, tecendo loas ao nada, e a risada alta que espanta a tristeza. A Muda continua lá, talvez mais cinzenta e assustada com a modernidade de drywall dos prédios novos, mas a sua alma poética permanece imune ao tempo graças ao feitiço do seu mago mais ilustre. Sua poesia é uma eterna provocação contra a nossa amnésia coletiva e a nossa complacência com os imbecis: "Os heróis do bem prosseguem na brisa da manhã / vão levar ao reino dos minaretes / a paz na ponta dos aríetes / a conversão para os infiéis".

 

Que falta faz o seu olhar destilado para decifrar esse Brasil atual, que parece uma caricatura mal desenhada das letras que ele escreveu há cinquenta anos. Ele já tinha visto tudo antes; já tinha previsto os palhaços e batráquios (estes últimos, segundo Dr. Casanova) no poder, a volta dos que nunca foram e a eterna valsa dos mentecaptos nos salões da República. Sua obra não envelhece porque a nossa pós-verdade e a estupidez cotidiana também insistem em se manter jovens e revigoradas: "Acreditar na existência dourada do sol / mesmo que em plena boca / nos bata o açoite contínuo da noite".

 

Em Dois pra lá, dois pra cá, composta dentro de um táxi na volta da esbórnia, em agonia extrema pela ausência de um simples pedaço de papel, ele desenhou a dor do fim de festa com maestria hepatológica, mas sem perder o prumo: "No dedo um falso brilhante / Brincos iguais ao colar / E a ponta de um torturante / Band-aid no calcanhar", mostrando que até na derrota amorosa o cidadão mantém o orgulho intacto e o topete engomado. Ele sabia que a dignidade do homem comum está na sua capacidade de aguentar o tranco da vida sem perder a pose de quem sabe o que está fazendo. Ele nos ensinou a sofrer com estilo e a rodopiar no meio do tiroteio entre o Cruz e o Andaraí.

 

A sua alquimia urbana misturava as dores e as glórias das nossas misérias mais íntimas, criando um licor forte que trava o gogó, mas acalenta nossa alma animal. Ele não poupava ninguém, muito menos a si mesmo, rindo das suas próprias fraquezas com a coragem que só os verdadeiros gigantes possuem. Entre uma lambida do Batuque, uma dose de grapa, uma Brahma gelada ou seu fiel Jack Daniel's, que carinhosamente apelidava de "mordomo", o mago da Muda não precisava de varinha de condão; bastavam uma caneta esferográfica, a velha Olivetti e as lembranças do balcão e da infância para transformar o mundo — ele costumava dizer que quem compunha era o Aldirzinho: "Velhas ruas / se essas pedras falassem / talvez até confirmassem / o que eu tenho pra dizer".

 

Por isso, nada de velas ou discursos lacrimosos, à la novela do SBT nos anos 80, de autoridades que nunca pisaram num pé-sujo da Zona Norte na vida. Vamos celebrar os oitenta anos do cronista com a irreverência que ele nos deixou de herança, cantando alto para espantar os fantasmas da burrice que insistem em assombrar o país. Oitenta anos de Aldir é a certeza de que a poesia das coisas aparentemente comuns que desandam a frágil personalidade humana é, no fundo, a única que consegue cutucar a ferida aberta da nossa realidade contiana: "O Brasil deixa estar como está / se organiza é capaz de piorar / se cobrir vira circo / se cercar é hospício".

 

Revisitar sua obra com Moacyr Luz e com o mestre Paulo César Pinheiro, sem falar no Maurício Tapajós, nos leva direto para as calçadas repletas de mesas amarelas de plástico onde o samba cura a ressaca da existência. Em Saudades da Guanabara, ele gritava seu amor e sua compaixão pela cidade partida, soltando a emblemática pontada geográfica: "Reguei o Salgueiro pra Muda pegar novo alento / E plantei novos brotos no Engenho de Dentro / Pra alma não se atrofiar". Era a prova definitiva de que o Rio dele nunca foi o cartão-postal pasteurizado para gringo ver, mas a resistência cultural pura que sobrevive nas frestas do piso sem rejunte dos redutos psico-etílicos mais vagabundos: "Envelheci mas continuo em exposição / a ex-mulher me chama de sardinha de balcão / eu digo sempre que melhor / que apodrecer ao lado dela / é ir mofando entre o torresmo e a moela".

 

Não dá para esquecer a rabiola cortante que ele injetava nas composições, como na clássica Kid Cavaquinho, onde destilava sua crônica sobre as malandragens suburbanas e as reações no buteco: "Mas se eu contar o que é que pode um cavaquinho / Os home não vão crer / Quando ele fere, fere firme / E dói que nem punhal". Ele mostrava com um olhar astuto, assim meio de esguelha, como o talento das ruas é lapidado na corda bamba, entre o escárnio de quem assiste e o suor de quem executa.

 

Quando a dor apertava no peito e a solidão parecia não ter fim, o compositor buscava o socorro da poesia para conseguir encarar o papel em branco. Cada vírgula era um trato silencioso com a lucidez que a sobriedade fingida da sociedade tentava castrar. Aldir Blanc escrevia como quem sangra de propósito, apenas para ter certeza de que o leitor ou o ouvinte do outro lado também sentissem a mesma pulsação delirante e, por vezes, cruel das ruas: "A triste figura / Dom Quixote quer mais um traçado / cadê o Sancho? / dá pro santo / e o passado volta a desfilar / pierrot de marcha-rancho".

 

Em O mestre-sala dos mares, ele deu o golpe final na historiografia oficial dos livros didáticos ao imortalizar João Cândido: "Glória a todas as lutas inglórias / Que através da nossa história / Não esquecemos jamais". Ele arrancou a chibata das mãos dos carrascos e transformou o "almirante" negro — alcunha que estava na letra original e acabou limada por algum censor meticortânico — em herói nacional indiscutível, mostrando que a sua caneta tinha o poder de fazer justiça histórica à revelia dos quartéis e dos palácios.

 

Essa mistura fina de denúncias pesadas com gingado de malandro é o que torna o seu legado algo absolutamente inalcançável para os poetas de gabinete. Ele não precisava de teorias estéticas complexas porque vivia a antiestética do fato consumado, da bala perdida que interrompe o samba e da jura de amor rasgada no portão da vila. Ele foi o maior tradutor das nossas pequenas misérias e das nossas imensas e silenciosas vitórias cotidianas: "O menino cresceu entre a ronda e a cana / correndo nos beco que nem ratazana / entre a punga e o afano / entre a carta e a ficha".

 

Celebrar os seus oitenta anos imaginários é manter acesa a fogueira de uma cidade que insiste em se apagar diante de tanta caretice gourmetizada e cervejas artesanais. A Muda de Aldir não aceita ciclovias coloridas ou cafés com notas de pistache com leite de amêndoas acompanhado de petit fours; ela exige o cheiro de óleo diesel do 413 (Muda-Copacabana), a média com pão e Claybon e a conversa fiada que desafiava a velocidade do relógio do América que, na parede do antigo Momo, cumpria seu giro na direção contrária — isso era bem a cara dele. O poeta das coisas simples do dia a dia e, ao mesmo tempo, da complexidade da psique, continua sendo o farol dos incompreendidos, o padroeiro dos boêmios que ainda acreditam na força de um samba que vai muito além de um bom swing: "Eu sou rolimã numa ladeira / não tenho o vício da ilusão / hoje eu vejo as coisas como são / estrela é só um incêndio na solidão".

 

Deixemos então que ele descanse em paz ao lado de Ceceu Rico, Paulo Amarelo, Basile, Maneca e do fiel Batuque, todos rindo — inclusive o cachorro — da nossa cara de tontos tentando explicar a sua genialidade em textos de internet. Oitenta anos da mais pura e sacana feitiçaria poética carioca, um patrimônio que nenhuma vigilância sanitária ou moralismo de fascistas enrustidos conseguirá jamais interditar. Viva Aldir Blanc, o eterno e definitivo alquimista da nossa esquizofrênica e trágica bagunça urbana: "A solitude eu fiz por companheira / cada mentira minha é verdadeira". É meu parceiro... como diria meu velho amigo Robinho da Monroe: winwenders e aprendenders.

 

Este artigo é dedicado a Mary, a Mariana, a Isabel e aos netos que ele tanto adorava.

 

Mario André Medella

 

 
 
 

Comentários


bottom of page