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Tide e Stone Flower: Álbuns que não saem da preamar e fazem brotar flor em pedra

marioandremedella
9 de set.
4 min de leitura

Tide, lançado pelo maestro Antônio Carlos Jobim em novembro de 1970 através da simbiose entre as gravadoras A&M Records e CTI Records, funciona na história da música como o movimento sutil e inevitável das marés. Gravado nos míticos estúdios de Rudy Van Gelder em Nova Jérsei, sob o olhar atento e refinado do produtor Creed Taylor, este trabalho nasceu de um momento de transição e assombrosa fertilidade criativa. Entre os meses de março e maio daquele ano, Tom Jobim dividiu o tempo no estúdio para conceber duas obras-primas irmãs: a urgência misteriosa de Stone Flower e a calmaria ondulante deste registro que, por muitas vezes, foi erroneamente diminuído como uma mera sombra ou continuação de seu estrondoso sucesso anterior, o clássico Wave de 1967. No entanto, a perspectiva histórica revela que a obra carrega uma identidade própria e uma melancolia madura, registrando o instante exato em que a bossa nova de sotaque carioca começava a se desfolhar para abraçar as texturas mais densas e experimentais do jazz fusion e do território universal da world music.


A crítica contemporânea e os ouvintes especializados enxergam a audição deste trabalho como uma caminhada descalça por uma praia deserta ao entardecer, onde o mar reconquista a areia com uma suavidade enganosa. A engenhosidade do disco reside grandiosamente nos arranjos do pianista Eumir Deodato, que assumiu a função antes delegada à Claus Ogerman e trouxe uma assinatura mais dramática, encorpada e geométrica para as linhas de sopros e madeiras, reduzindo o protagonismo absoluto das cordas. Embora a faixa-título seja uma inteligente reestruturação harmônica sobre os caminhos de Wave, o álbum se justifica e brilha intensamente em suas reinvenções. A abertura com uma versão instrumental de The Girl from Ipanema surpreende ao fugir do óbvio, ganhando contornos quase teatrais, enquanto a leitura de Carinhoso, o hino eterno de Pixinguinha, ganha uma doçura etérea conduzida pela flauta melódica de Joe Farrell. O ápice do vanguardismo poético do álbum se desvela na hipnotizante Tema Jazz, onde as notas econômicas do piano elétrico de Jobim abrem espaço para que o sopro indomável e multifônico de Hermeto Pascoal flutue como um pássaro livre sobre a precisão rítmica de Airto Moreira e João Palma, isso tudo sem falar nas intervenções perfeitas e profundas do baixo acústico de Ron Carter. É um disco curto, despido de excessos e costurado com uma elegância minimalista que prova que o silêncio e o espaço entre as notas importam tanto quanto a própria melodia.


Os álbuns Tide e Stone Flower não são espelhos distantes, mas sim frutos de uma mesmíssima colheita musical realizada em 1970. A intuição de enxergar neles uma natureza quase gemelar está absolutamente correta. Sob a eficiência do lendário produtor Creed Taylor e nos estúdios sagrados de Rudy Van Gelder, as canções de ambos os discos ganharam vida exatamente nas mesmas sete sessões de gravação, entre março e maio daquele ano. Havia ali uma questão contratual a ser resolvida: o maestro e o produtor deviam um álbum à gravadora A&M Records, enquanto gestavam a estreia do selo independente CTI Records. A solução foi deixar o som fluir como um rio caudaloso que depois seria dividido em dois leitos. Navegando nessa idêntica onda estética, os mesmos gigantes de terno e instrumento derramaram seu talento nas fitas: o contrabaixo elegante de Ron Carter, a bateria precisa de João Palma, a flauta mística de Hermeto Pascoal e as percussões de Airto Moreira. Amarrando essa Teia dourada com fios de puro requinte, o jovem Eumir Deodato assumiu os arranjos de ambas as obras, vestindo a bossa nova envelhecida com as roupas modernas de um jazz instrumental cinematográfico, repleto de mistério e texturas tropicais. Enquanto Stone Flower desbravava um Brasil mais profundo e terroso, de pedras e andorinhas, Tide funcionava como o movimento de maré que ligava o passado e o futuro de Jobim, recriando as ondas antigas e flertando com experimentos elétricos. São, em essência, o mesmo sopro de genialidade capturado em duas embalagens distintas, dois lados de uma mesma moeda preciosa que o maestro cunhou no ápice de sua sofisticação.


Faixas de Tide


Girl from Ipanema

Carinhoso

Tema Jazz

Sue Ann

Remember

Tide

Takatanga

Caribe

Rockanália



Faixas de Stone Flower


Tereza My Love

Children's Games

Choro

Brazil

Stone Flower

Amparo

Andorinha

God and the Devil in the Land of the Sun

Sabiá

Brazil (take 2)



Tom Jobim - Tide (1970) (Full Album) - 48:58


Nota: Você deve ter notado que a faixa 1, Garota de Ipanema, não é a gravação original feita para o álbum Tide, e sim, a gravação de 1963 presente no álbum Getz & Gilberto. O motivo pelo qual você encontrou essa mistura se deve puramente a uma edição amadora feita pelo usuário que subiu o vídeo no YouTube, e não a um lançamento oficial.


Essa prática de "enxerto" é motivada por três razões principais dentro da plataforma:


• Contornar Direitos Autorais: O algoritmo de identificação de direitos autorais do YouTube bloqueia com mais facilidade álbuns inteiros cujas faixas oficiais batem exatamente com os registros modernos das gravadoras. Ao substituir a faixa instrumental de 1970 pela gravação cantada de 1963, o upload "engana" ou altera a assinatura do arquivo digital, reduzindo as chances de o vídeo completo ser derrubado imediatamente por direitos autorais.

• Apelo de Visualizações: Como a versão instrumental de Tide com arranjo pesado de Eumir Deodato é menos conhecida pelo grande público, o criador do vídeo opta por colocar a versão mais famosa e icônica da canção logo no início para atrair e reter os ouvintes na postagem.

• Equívoco de Organização: Muitos canais não oficiais que reúnem discos clássicos baixam arquivos fragmentados de fontes duvidosas e montam os álbuns manualmente para publicação, incluindo arquivos errados por simples confusão devido ao mesmo título da música.


Abaixo está o link para a verdadeira faixa 1 do álbum.


Tom Jobim - The Girl From Ipanema


Tom Jobim: Stone Flower (1970) - 42:17

 
 
 

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