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O Resgate Sonoro Sem as Firulas Midiáticas

marioandremedella
9 de set.
8 min de leitura

O mercado de resgates musicais históricos ganhou um capítulo fundamental em 2010 com o lançamento da coletânea intitulada Exotic Dreamers. Esse projeto foi idealizado e distribuído pela gravadora Righteous Records, trazendo ao formato digital duas obras-primas da chamada música Exotica que estavam fora de catálogo por décadas. O álbum foi disponibilizado oficialmente nas lojas em dezessete de maio de 2010 como um CD de compilação remasterizado, atraindo imediatamente a atenção de colecionadores, DJs e entusiastas de sonoridades retro-futuristas que marcaram o final dos anos cinquenta nos Estados Unidos.


A proposta central do álbum foi unir de maneira conceitual dois discos de estúdio originais gravados no ano de 1958 que compartilhavam a mesma atmosfera de fantasia tropical e escapismo geográfico. A primeira metade da coletânea é composta pelo álbum Exotic Dreams da cantora havaiana Ethel Azama, cujos arranjos sofisticados e condução ficaram a cargo do maestro Paul Conrad. A segunda metade do CD resgata na íntegra a obra-prima Mganga, o aclamado álbum de estreia em formato solo do compositor, arranjador e maestro nipo-americano Tak Shindo, que originalmente foi publicado pela gravadora Edison International sob a produção executiva de Jack Ames.


Para que o projeto gráfico e histórico fizesse justiça à importância dessas gravações, a Righteous Records reuniu um time especializado de profissionais na produção da edição de dois mil e dez. A pesquisa minuciosa de repertório e o resgate das fitas master originais foram coordenados por Jon Roberts, garantindo que o material selecionado estivesse completo. O design visual do encarte e toda a direção de arte da embalagem foram desenvolvidos por Dave Black, que se preocupou em manter a estética visual vibrante da época. Além disso, o jornalista Dave Henderson, conhecido por seu trabalho na revista britânica MOJO, assinou as notas de encarte contextuais.


O processo de restauração sonora foi um dos grandes destaques do lançamento, permitindo que os arranjos complexos fossem apreciados com clareza moderna. A engenharia de som e o trabalho de remasterização digital da coletânea foram integralmente realizados pelo técnico Alan Wilson. Esse tratamento de áudio refinou as frequências originais capturadas nos anos cinquenta, preservando o trabalho dos engenheiros de som da época, como John Neal, que gravou o disco de Shindo. O resultado final trouxe um ganho expressivo de dinâmica tanto para as passagens vocais quanto para as texturas instrumentais pesadas.


A porção dedicada ao trabalho de Tak Shindo apresenta uma instrumentação inovadora para a sua época, mesclando folclore africano com jazz e ritmos afro-cubanos. O maestro utilizou uma enorme parede de percussão e instrumentos tradicionais que incluíam o koto japonês, o samisen, flautas de bambu e gongos de templos orientais. A fundação rítmica foi construída com o uso de congas, bongôs, tambores de freio automobilístico, boo-bams[*], cabasas, guiros[*], glockenspiels[*] e sinos coreanos e siameses[*]. Essa mistura exótica e textural transformou o álbum em uma referência absoluta dentro do gênero, sendo altamente cobiçado por percussionistas.


Com esse lançamento, a Righteous Records conseguiu preservar a memória fonográfica de um período em que a música ocidental olhava para o mundo com curiosidade e fantasia. Exotic Dreamers não apenas devolveu ao público a voz expressiva de Ethel Azama, mas também solidificou o nome de Tak Shindo como um dos maiores arquitetos sonoros da música pop instrumental do século vinte. O álbum continua sendo uma recomendação essencial para quem deseja estudar as origens da música lounge, do jazz afro-cubano e das técnicas pioneiras de gravação que moldaram a era de ouro da alta fidelidade.


O renascimento do gênero Exotica no século XXI consolidou uma ponte fascinante entre o escapismo nostálgico dos anos cinquenta e as técnicas modernas de produção em estúdio, sem as firulas papagaiantes dos anos 50. Embora o estilo tenha nascido sob o signo da alta fidelidade analógica, a virada do milênio trouxe uma nova geração de artistas e selos fonográficos empenhados em recriar aquelas atmosferas tropicais, misteriosas e altamente instrumentais. Longe de ser apenas um exercício de imitação passiva, esse revival contemporâneo injetou novas estéticas ao gênero, incorporando elementos de música eletrônica, jazz de vanguarda e psicodelia global, mantendo viva a tradição dos arranjos exuberantes e da percussão hipnótica.


Um dos marcos iniciais dessa revitalização nas duas primeiras décadas do novo século ocorreu pelas mãos do lendário compositor e saxofonista John Zorn. Com o seu projeto intitulado The Dreamers, lançado oficialmente em dezoito de março de dois mil e oito, Zorn pavimentou uma abordagem vanguardista para o estilo ao misturar o minimalismo clássico à urgência do jazz-rock e do surf rock. O álbum de estreia do grupo, batizado com o mesmo nome da banda, trouxe músicos virtuosos como Marc Ribot na guitarra e Cyro Baptista na percussão, resultando em uma homenagem explícita aos pioneiros Les Baxter e Martin Denny, reconfigurada para a sensibilidade alternativa nova-iorquina.


Na Europa, a tocha da música Exotica contemporânea foi carregada com maestria pela banda sueca Ìxtahuele, que se tornou uma das maiores referências mundiais do gênero no século XXI. O grupo estreou de forma impactante com o álbum Pagan Rites em dois mil e treze, lançado pela gravadora independente Subliminal Sounds. O trabalho chamou a atenção pela fidelidade histórica absoluta na escolha de instrumentos acústicos tradicionais da era de ouro do estilo, evitando sintetizadores modernos em favor de marimbas, vibrafones, congas e efeitos sonoros que evocavam selvas e templos distantes, provando que a engenharia de áudio moderna ainda conseguia capturar o calor orgânico das gravações clássicas.


O grupo sueco deu continuidade à sua exploração conceitual com o elogiado disco Mare Nostrum, publicado em dois mil e dezoito, expandindo o vocabulário temático da Exotica para além dos clichês polinésios e caribenhos comuns ao meio do século passado. Em vez de focar apenas no Havaí ou na África mítica, o conjunto viajou sonoramente pelas rotas comerciais e mitologias do Mar Mediterrâneo antigo. A produção combinou melodias folclóricas gregas e árabes com ritmos de jazz exótico, consolidando a capacidade do gênero de se reinventar por meio de narrativas geográficas inovadoras e arranjos orquestrais sofisticados que iam muito além do mero pastiche retroativo.


Paralelamente às bandas tradicionais de estúdio, o multi-instrumentista e compositor sueco Mattias Uneback levou o gênero a profundezas literais com seu aclamado projeto solo intitulado Voyage Beneath The Sea. Lançado em meados de dois mil e vinte e dois sob o selo Subliminal Sounds, o álbum foi concebido como uma sinfonia conceitual dedicada aos mistérios subaquáticos e à fantasia marinha. Uneback, que também integra o Ìxtahuele, utilizou uma orquestração ambiciosa combinando coros líricos, percussão tribal densa e eletrônica vintage de meados do século passado para pintar um quadro sonoro de continentes submersos e criaturas bioluminescentes, gerando uma experiência imersiva e cinematográfica.


A evolução do estilo no século XXI também abraçou fusões mais enérgicas e voltadas para o balanço de pistas de dança, como demonstrado pelo grupo alemão Takeshi's Cashew. O álbum de estreia da banda, intitulado Humans in a Pool e lançado em quatro de junho de dois mil e vinte e um, exemplifica perfeitamente essa hibridização ao amalgamar a Exotica clássica com o rock psicodélico, o funk e o chamado tishoumaren, que é o blues tuaregue do deserto. Repleto de flautas transversais, guitarras com efeitos de eco e linhas de baixo marcantes, o disco provou que os conceitos de escapismo instrumental formulados nos anos cinquenta permanecem extremamente férteis quando combinados às dinâmicas das jam bands contemporâneas.


O ressurgimento comercial do vinil e o apetite por texturas orgânicas propiciaram também o surgimento de talentos singulares focados em técnicas instrumentais raras, como a assobiadora profissional Molly Lewis. Natural da Austrália e radicada em Los Angeles, Lewis lançou no século XXI os aclamados trabalhos compactos The Forgotten Edge e Mirage, que resgataram a tradição de usar o assobio humano como o instrumento melódico principal do lounge e da Exotica. Seus arranjos minimalistas e cinematográficos evocam imediatamente as trilhas sonoras de espionagem e os ambientes esfumaçados de hotéis tropicais, atualizando o charme sonoro do gênero com uma sofisticação melancólica e elegante.


Além de novos artistas criarem composições inéditas do zero, o século XXI tem sido alimentado por uma indústria robusta de produção musical dedicada a compilar faixas esquecidas em edições definitivas. Coletâneas ambiciosas como Exotica: The Ultimate Collection e as séries focadas em resgatar a chamada música do espaço sideral ou canções de temática Tiki[**] ajudaram a educar o ouvido das novas gerações. Esses lançamentos digitais e em vinil duplo de alta gramatura cumprem o papel crucial de contextualizar o trabalho de figuras históricas como Eden Ahbez e Robert Drasnin, unindo em um mesmo catálogo os registros históricos e os herdeiros modernos do estilo.


Outro reflexo vibrante dessa cena no novo milênio é a proliferação do projeto coletivo The Malihini Serenaders, cujo álbum de estreia lançado nos últimos anos celebrou a composição tradicional hapa haole[***] com técnicas de gravação limpas e vibrantes. Focados nas harmonias vocais havaianas temperadas por violões de aço e ukuleles, eles demonstram que o braço mais ensolarado e litorâneo do gênero ainda possui apelo universal. Essa dedicação minuciosa à preservação técnica e estética garante que o ouvinte contemporâneo possa transitar facilmente entre os discos gravados em fita há setenta anos e as produções digitais recentes sem perder a sensação de deslumbramento.


Toda essa movimentação fonográfica ao longo do século XXI atesta que o gênero Exotica superou o rótulo de mero modismo passageiro da era pós-guerra para se transformar em um idioma musical permanente e maleável. Seja através da vanguarda jazzística de Nova Iorque, do purismo acústico escandinavo ou do caldeirão psicodélico europeu, os pilares fundamentais do estilo continuam intactos. O desejo humano por transporte mental através das frequências sonoras permanece mais forte do que nunca, consolidando esses lançamentos recentes como ferramentas essenciais de fuga e imaginação em um mundo hiperconectado.



* Para compreender melhor as texturas e dinâmicas mencionadas ao longo do texto, vale a pena detalhar a natureza dos instrumentos percussivos citados. Os boo-bams, por exemplo, são formados por uma fileira de tubos ressonadores (geralmente de plástico ou bambu) acoplados a pequenas membranas; como o comprimento de cada tubo define uma nota musical exata, eles funcionam como tambores afinados que entregam um som melódico, seco e exótico. Já o guiro, amplamente tradicional na música afro-caribenha, atua na construção rítmica por meio da raspagem: o percussionista desliza uma baqueta pelas ranhuras de sua superfície de cabaça ou madeira, gerando um timbre áspero e contínuo essencial para o suingue das composições. Em uma frequência bem mais alta atua o glockenspiel, um teclado percussivo com lâminas de aço dispostas como as teclas de um piano que, ao serem golpeadas por baquetas rígidas, produzem um som extremamente brilhante, cristalino e penetrante. Por fim, os sinos siameses (pequenos pratos metálicos de formato côncavo, também conhecidos na Ásia como ching) complementam esse leque tímbrico através da concussão de suas bordas, resultando em um som metálico agudo de longa ressonância, ideal para criar atmosferas místicas, ritualísticas ou texturas sutis na arranjagem.


** As canções de temática tiki referem-se a um subgênero musical popularizado nos Estados Unidos entre as décadas de 1930 e 1960, profundamente associado à cultura "Tiki" e à estética da exótica. Caracterizam-se pela fusão idealizada de ritmos polinésios, havaianos e caribenhos com o jazz, o pop tradicional e os arranjos orquestrais de Hollywood, utilizando frequentemente instrumentos como o ukulele, violões de aço e sons ambientais da natureza, como cantos de pássaros e ondas do mar, para evocar um ambiente nostálgico, tropical e escapista. O termo tem origem na mitologia Maori e de outras culturas da Polinésia, onde "Tiki" representa o primeiro homem ou estátuas esculpidas em madeira ou pedra que servem para demarcar locais sagrados ou abrigar divindades. Essa palavra foi apropriada pela cultura pop ocidental após militares americanos retornarem do Pacífico Sul após a Segunda Guerra Mundial, encantados pelo exotismo da região, o que gerou um forte desejo de escapismo urbano e resultou na criação de bares e músicas que imitavam esse universo místico e paradisíaco.


*** A tradição musical hapa haole (termo havaiano que significa "meio estrangeiro") surgiu no Havaí no início do século XX, combinando melodias, ritmos e instrumentos tradicionais havaianos, como o ukulele e a steel guitar, com a estrutura harmônica e letras em inglês da música pop ocidental da época. Criado principalmente para o público turístico e popularizado por Hollywood e pelas rádios norte-americanas entre as décadas de 1920 e 1950, esse gênero fundiu a estética idealizada das ilhas tropicais com o estilo de composição de Tin Pan Alley, tornando-se um marco na internacionalização da cultura havaiana.



Tradewind - Eden Ahbez


John Zorn The Dreamers - Zavebe


Molly Lewis - The Forgotten Edge (Official Audio)


Hana - Maile Serenaders

 
 
 

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