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A Papagaiada midiática do Norte

  • marioandremedella
  • 26 de jul.
  • 5 min de leitura
Nas décadas de 50 e 60 do século XX, as vitrolas da classe média norte-americana ecoavam sonoridades que prometiam uma viagem direta ao coração de selvas inexploradas, templos esquecidos e rituais místicos de terras distantes. Sob o rótulo sedutor da música exótica e do easy listening, a indústria fonográfica dos Estados Unidos, capitaneada por grandes selos famintos por novidades mercadológicas, engrenou uma sofisticada máquina de tradução cultural. O pretexto oficial era nobre e trazia a roupagem da diplomacia cultural: difundir a riqueza artística do chamado Terceiro Mundo, aproximando o público ocidental de tradições latinas e africanas. Por trás das cortinas de veludo e dos arranjos luxuosos, contudo, operava-se uma engrenagem fria de espetaculização colonial, uma encenação midiática com fins unicamente comerciais que reduzia o gênio criativo a um produto exótico de consumo rápido. Esse fenômeno funcionava como um verdadeiro zoológico pseudoestético de alta fidelidade. Artistas de técnica refinada e ancestralidade legítima eram despidos de sua real complexidade intelectual para serem fantasiados como criaturas curiosas, capturadas de uma periferia global deliberadamente desenhada como primitiva. O valor estrito da obra e o virtuosismo técnico ficavam relegados a um plano secundário, sufocados pela necessidade de chocar e entreter uma audiência ávida pelo bizarro domesticado. Era o triunfo da caricatura sobre a substância, uma manobra mercadológica que o jargão popular e a sabedoria ancestral de figuras como minha avó, Dona Maninha, definiriam, com cirúrgica simplicidade, como uma imensa e ruidosa "papagaiada".
 
O exemplo mais emblemático dessa engrenagem de fetiche foi a trajetória da fantástica cantora peruana Yma Sumac. Dona de uma extensão vocal prodigiosa que desafiava os limites da anatomia humana, Sumac foi comercializada pela Capitol Records não como a soprano extraordinária que era, mas como uma autêntica princesa inca resgatada diretamente de um passado místico e intocado. A estridência visual de suas apresentações, moldada pelos departamentos de marketing de Hollywood, transformou-a em uma figura quase mitológica, um pavão exuberante que parecia ter escapado de uma tela surrealista de Salvador Dalí. O público maravilhava-se com os agudos que imitavam pássaros da floresta e os graves que evocavam terremotos andinos, mas poucos se importavam com a verdadeira raiz da música que ela executava. Sua identidade real foi soterrada por uma identidade cenográfica, construída para satisfazer o imaginário de um Ocidente que precisava enxergar o nativo como um ser exótico, intocado pela modernidade e puramente instintivo.
 
Cenário semelhante de aprisionamento estético envolveu a não menos fantástica Celia Cruz, importada diretamente de uma Cuba efervescente e reluzente aos olhos do turismo americano. Ao cruzar as fronteiras da indústria fonográfica hegemônica, a potência de Celia e sua profunda conexão com as matrizes rítmicas e religiosas afro-cubanas foram sutilmente pasteurizadas para o consumo de massa. A indústria transformou a complexidade da santeria cubana em um espetáculo visual de mistério performático, moldando a cantora como uma misteriosa ialorixá saída de algum terreiro surreal. Embora o talento avassalador de Celia Cruz tenha quebrado as barreiras da própria caricatura que tentaram lhe impor, o esforço inicial dos grandes selos centrou-se em domesticar o sagrado, convertendo o transe e a devoção dos tambores em uma atração exótica de cabaré para olhos e ouvidos que jamais compreenderiam a densidade de sua herança.
 
Esse maquinário de redução cultural estendeu seus tentáculos a outros grandes nomes da época que sofreram do mesmo mal da rotulação folclórica. O compositor e regente mexicano Juan García Esquivel, gênio absoluto do arranjo e pioneiro da música espacial, teve sua sofisticação matemática e seu domínio tecnológico muitas vezes minimizados pela crítica de sua época, que preferia focar no colorido excêntrico e nos efeitos vocais caricatos de suas composições. Da mesma forma, o percussionista nigeriano Babatunde Olatunji, ao lançar seu álbum pela Columbia Records, viu sua profunda pesquisa rítmica e sua militância cultural serem embaladas sob a estética da "selva indomável", apelando para o fetiche de um continente africano homogêneo, misterioso e selvagem. Até mesmo a brasileira Carmen Miranda, em um período ligeiramente anterior mas cujos reflexos moldaram os anos 50, estabeleceu o precedente definitivo dessa estética do excesso, onde o talento interpretativo precisava ser mascarado por tabuleiros de frutas tropicais para ser minimamente digerido pelo paladar norte-americano.
 
O que a história da música de qualidade nos revela, ao analisar esse período com o devido distanciamento crítico, é que a inclusão promovida pela indústria da época era, na verdade, uma forma refinada de exclusão. Ao aprisionar o artista na jaula dourada do exotismo, o centro hegemônico garantia que esses músicos jamais fossem medidos pela mesma régua de genialidade intelectual aplicada aos compositores eruditos ou aos astros do jazz e do pop locais. O colonialismo estético transformava a diferença cultural em mercadoria exótica, pasteurizando a dor, a devoção e a técnica de povos inteiros para transformá-las em música de fundo para coquetéis na América do Norte.
 
Redescobrir esses artistas hoje exige, portanto, um esforço poético e político de arqueologia: é preciso rasgar as fantasias de pavão, limpar a fumaça dos terreiros cenográficos criados pelo marketing e escutar, finalmente, a maestria nua e crua daqueles que foram gigantes, apesar da ópera bufa que os cercava.

Em meio a esse teatro de fetiches coloniais, houve uma singular e elegante exceção que subverteu a lógica do picadeiro fonográfico norte-americano. Enquanto os grandes selos se ocupavam em engaiolar o gênio latino e africano em estereótipos palatáveis para o consumo de massa, a bossa-nova brasileira logrou penetrar o circo do norte sem se submeter a presepadas cênicas ou concessões caricatas. O movimento, nascido nos apartamentos de Copacabana, cruzou o equador despido de plumas exuberantes ou de um misticismo artificialmente fabricado. Essa imunidade temporária contra a engrenagem do exotismo comercial decorreu de um fator crucial: antes que os caçadores de tendências e os empresários criadores de personagens pusessem os olhos e as garras no novo ritmo, a bossa-nova já havia caído no gosto, na cumplicidade intelectual e na admiração mútua dos próprios músicos norte-americanos.

Antes de virar produto de vitrine, o samba moderno e sutil do Brasil foi acolhido como um igual pelos gigantes do jazz, que enxergaram naquela sutil síncope e nas harmonias complexas de Tom Jobim uma sofisticação estética que dialogava diretamente com a vanguarda musical de Nova York. Não havia espaço para fantasias folclóricas porque a interlocução se deu no nível mais alto da inteligência musical; o diálogo era de mestre para mestre. Quando a indústria percebeu o potencial comercial daquela novidade, a dignidade artística da bossa-nova já estava blindada pelo respeito de figuras que validavam sua substância técnica e poética, impedindo que ela fosse reduzida a mais uma atração pitoresca do zoológico cultural.

O marco definitivo e histórico dessa invasão soberana ocorreu na chuvosa noite de 21 de novembro de 1962, no lendário palco do Carnegie Hall. Ali, no mesmo templo que costumava exigir dos artistas do sul geopolítico uma cota de excentricidade, os jovens músicos brasileiros apresentaram-se sem máscaras. Apesar dos infames problemas técnicos, de uma floresta de microfones mal ajustados e da incompreensão inicial de parte da crítica que tentava enquadrar o silêncio e o sussurro na estridência habitual dos espetáculos latinos, o valor real da obra se impôs. João Gilberto, com seu violão gago e sua contenção hipnótica, não precisou vestir as roupas de um herói exótico para magnetizar uma plateia repleta de lendas como Miles Davis e Tony Bennett. Tom Jobim ao piano e a poesia minimalista que flutuava no ar provaram que a bossa-nova não pedia licença para ser exótica; ela exigia ser escutada por sua erudição moderna.

Essa incursão altiva demonstrou que, quando a arte consegue antecipar-se à ganância dos escritórios de marketing, ela quebra o ciclo do fetiche colonial. Ao contrário do pavão andino ou da ialorixá surrealista desenhada pelos selos, os arquitetos da bossa-nova fincaram sua bandeira no norte amparados puramente pela arquitetura de suas notas. O concerto do Carnegie Hall, mesmo cercado pelas pressões comerciais que mais tarde tentariam domesticar o gênero sob o rótulo do easy listening, permaneceu na história como o instante em que o Terceiro Mundo não foi capturado para entretenimento alheio, mas sim o momento em que ele civilizou, com a delicadeza de um acorde dissonante, o coração da metrópole.


Taita Inty (Virgin Of The Sun God) (1999 Digital Remaster)
https://www.youtube.com/watch?v=71C8YSacpjw 

Celia Cruz - Bembelequa
https://www.youtube.com/watch?v=UR_NB-T9uek

Bossa no Carnegie Hall (1962)
https://www.youtube.com/watch?v=BlRLpmRxDfY

 
 
 

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